quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Desabafo sobre os conflitos geracionais...


"Mas essa geração está muito libertária, perdida, inconsequente e revoltada."


Sim, tem muita verdade nesses rótulos dados à minha geração e às posteriores, pelas gerações anteriores.

Gerações de nossos irmãos/irmãs, pais/mães, primos/as, tios/as, avôs/avós, que fizeram parte dos anos passados do século XX, já ditos "velhos tempos", que muito se diferem dos tempos atuais - dos anos 2000 em diante. Anos vistos (por uma parcela) como tempos cada vez "piores" e mais "difíceis" por nossos parentes, com mais idades e mais experiências do que nós - reles mortais de entre 15 e 30 anos e que "sabem pouco da vida".

Mas será que estamos tão errados assim?
Quem tem a razão nesta disputa de certezas e verdades, entre as gerações e seus tempos históricos?

Chamo agora à reflexão, visto que essas rotulações tem feito parte de calorosos debates e pensamentos que tem vindo a tona no campo interrelacional e sociopolítico, e consequenetemente, tem influenciado nossas vidas em todas as dimensões quanto ao que se define como CERTO e ERRADO. Principalmente no que diz respeito à essa contraditória e difícil arte de viver - para a maior parte da população, claro (retiro aqui a minoria privilegiada que não necessita se preocupar com isso). 

Embora acredite que mesmo os grandes bilionários tem de se preocupar com os seus filhos/netos/ sobrinhos que acessam outros conhecimentos, os "vermelho-socialista-gayzista-feminista" na internet, na escola e em seus circulos sociais, e que acabam por "sair do eixo" para eles planejado. Daí o ataque direto aos modelos políticos e instituições educacionais democráticas: "estão dando muita liberdade".

Contudo, ademais das relações de classe, gênero, raça e sexo com as quais nos deparamos e promovem a diferenciação de direitos e deveres bem diferenciados para uns e outros, temos uma real questão geracional que perpassa todas as discussões das mesas de cafés, almoços e churrascos de família - o da LIBERDADE.

É... da liberdade. Parece bonita e aceita esta palavra. Mas não é. E receio que seja ainda "pior" que todas as que levantamos no parágrafo anterior. Me refiro aqui, a LIBERDADE em todas as suas esferas. De ser, viver, amar, estar, fazer, não fazer, falar, não falar, querer e não querer. É essa liberdade atrelada à revolta que assusta profundamente as gerações anteriores e as fazem rejeitar estes tempos "modernos". Cheios de maldade, desigualdades e problemas que não superamos e aumentaram em diversos aspectos, é verdade. Mas muitos outros do ponto de vista da individualidade e sua expressão, diminuíram, visivelmente. E por que a liberdade, que não deveria ser um problema, assusta tanto, quando refletida nos atos da atual "geração perdida"?  Somos de fato "uma geração problema", por isso?

Para além do conservadorismo inerente, ele tem raízes e há muitas razões envolvidas para os conflitos com os tios da família... Mas quero aqui refletir sobre algumas.

Do ponto de vista religioso. Vemos que muitos dos nossos familiares, não foram se quer permitidos a conhecer outra religião fora as que imperavam no seu sistema familiar. Quem era católico, tinha que ser pra sempre e honrar a reprodução familiar e educar os filhos assim. Evangélicos, salvo as diferenças das organizações, igualmente. Desenvolvendo sérias restrições e perseguições aos que "saíam da linha" da evangelização. Espíritas, poderia caminhar um pouco mais livremente, mas ainda assim, sofriam represálias quando iam conhecer algumas religiões ditas"menos evoluídas" ou mais pretas e africanizadas, como Umbanda e Candomblé - "coisa de macumbeiro", mas hoje sabemos que isso está repleto de preconceito racial. "Buda? "quem é esse? toma vergonha". Então, claro, uma geração que chega e diz que cada um pode acreditar no Deus, Buda, Oxalá, Mãe-Terra, Tupã, Jeová que quiser OU NÃO (ateus), crendo na LIBERDADE de escolha, devoção e associação religiosa que bem entender, os assusta.

Do ponto de vista afetivo-amoroso. Novamente, a influência da religião... "e as/os namoradinhas/os?", "vai casar na nossa igreja, né?", "vai batizar?", "fez catecismo/crisma?", "tem que ter véu e grinalda"... quantas frases destas não ouvimos incessantemente de nossos familiares?... Daí vem o susto: "Não pretendo casar", "não pretendo ter filhos", "sim, estou namorando, e não é um homem/mulher.", "não me vejo como homem/ não me vejo como mulher, peço respeito o gênero no qual me vejo.", "não fiz e não obrigarei meus filhos a fazer (crisma/catecismo...)"., e por aí vai, os vários sustos por dia da segunda e terceira idades...

Do ponto de vista econômico. "Já comprou carro, casa, eletrodomésticos, roupas, sapatos?..." "já tem? Já alugou? Já financiou? o que pretende com seu salário? quanto ganha?", "quanto quer ganhar?", "vai trabalhar com o que?"... NÃO SEI. Sim, estamos num SISTEMA CAPITALISTA que cada vez menos fornece opções sólidas para as pessoas que não façam parte dos enriquecidos do mundo, o que o neoliberalismo vem fomentar. 

E todo o resto “mais ou menos” pobres e médias classes, estão perdidos profissionalmente, pensando em várias saídas e possibilidades de trabalho e sobrevivência que agrade minimamente neste sistema desigual e explorador. Num modo de produção que prega cada vez mais o trabalho quase gratuito ou "empreendedorismo" e talentos individuais sem os quais você não é merecedor de prosperidade. Vemos grande parcela adoecer desta geração desempregada (e da empregada em empregos inseguros e abusivos) na lógica desalentadora do mérito e do "status social".

Somos jovens que simplesmente estão "tocando a vida", e parte deles, lutando por direitos. Porque de fato, o sistema fecha o cerco e não temos segurança de mais nada em tempos de golpe e ódio generalizado. Ainda mais com uma reforma trabalhista, com leis cada vez mais feitas para patrões, com a flexibilização de trabalho e empregos precários que tomam conta de nossas vidas. Perda de espaço, cultura, lazer, direitos. E o cansaço infinito de uma busca constante... "Sorte" dos que conseguiram se consolidar em alguma área trabalhista até aqui. 

Do mais, nossa resposta é N-Ã-O-S-A-B-E-M-O-S. PoIS nem sabemos se empregos teremos, independente da formação educacional - esta sim, grande parcela quer ter a oportunidade de acessar - sonho que também vemos se arruinar diante nossos olhos, seja pelo custo, seja pela qualidade, seja pela falta de tempo e disposição de uma sociedade que vive pelo e para o dinheiro que não possui...

Mas queremos ter o que? LIBERDADE para mudar e desmudar de ideia, quantas vezes forem necessárias e desejadas. Devem entender isso, caras gerações dos 40, 50, 60, 70, 80 anos... porque não queremos "qualquer coisa que dê dinheiro", queremos também e cada vez mais, sermos FELIZES no que fazemos, no que somos e fazer algo pelo mundo, se possível. Não queremos ADOECER na amargura de não tentar ser o que se é e em função de empregos ruins, alguns que só dão dinheiro, mas não dão mais nada, outros que não dão nem isso. Ou naqueles que saímos cheios de problemas psicológicos e físicos que nos perseguirão para sempre.. Vidas mornas, tristes, rancorosas. Isso é "mimimi?", não creio. Cada um sabe a dor que traz dentro de si e oque faz ou não, feliz
Afinal, estamos para que nesta terra?

Se ensinaram a vocês que o sentido da vida era SOFRER, sabemos hoje que isso não deu certo, pois vemos tantos de vocês (e de nós) permanecem com problemas profundos - físicos, psicológicos e emocionais, provenientes de "vidas duras e sofridas" que passaram, que reverberaram em nós e as quais sabemos o quão de males e traumas podem perpetuar.

E carregamos isso conosco, tudo que não queríamos que vocês tivessem passado. Sabemos que para muitos de vocês foram necessários esforços descomunais para que pudessem existir e nós também. É errado não quer sofrer? Ninguém merece uma vida sem sentido e vontade de viver. Nem nós merecemos e nem vocês mereciam, passar por isso. Trabalhadores empobrecidos que foram por muito tempo, em grande maioria na sociedade brasileira explorada de meados do século XX em diante...

E no fundo, por mais que discordemos em tantos pontos, vos admiramos também, familiares mais velhos que sofreram neste sistema, mesmo que acabemos por nos afastar pelas grandes diferenças que possamos ter.

Mas essa geração veio para dizer que é exatamente ISSO que relatei até aqui, que não queremos. O mesmo grau de sofrimento - que não nego, podem sim trazer coisas boas no sentido de construção de personalidade, caráter e grandes aprendizados de vida - mas também podem trazer uma bagagem profunda de traumas, medos e pesos que custa a carregar, né? E que por vezes causam erros grandiosos. Os quais não queremos reproduzir, que não queremos para nós, pois tudo isso limita nossa vida, nossa paz e nossa LIBERDADE.

Entendo vocês, família "à moda antiga". Parece um pesadelo lidar com este "novo mundo", com a tal da LIBERDADE. Mas por que? Afinal, por que tanto vos afeta a orientação e opção de vida de seus filhos, netos, sobrinhos, quanto ao que escolhe para si não ser o mesmo escolhido por vocês até aqui? Por que as mudanças das novas gerações afetam e geram tantos medos, cobranças e rejeições quanto ao "mundo novo" que visualizamos, lutamos e trazemos?

Não tenho todas essas respostas, mas talvez vocês encontrem dentro de vocês, se buscarem as crianças e jovens cheios de sonhos, vida, vontades de conhecer e liberdade de ser, que um dia foram (ou que talvez ainda sejam). Daí talvez se compreenda o quanto deixaram pra trás, mesmo que não sejam culpados. Fizeram o possível dentro de suas possibilidades. 

Mas se não conseguiram fazer mais antes, nos dê o direito e a tranquilidade necessária para tal.

Afinal, há muito o que ser feito neste, por este mundo e por todos nós.

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